Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

Se bem se lembram na parte I, Jean e Joanne ficaram a "apaixonar-se". esta é a parte final do texto que enviei para o concurso de escrita criativa há uns tempos. O resultado foi mau! não venci. e irónico, fui eu quem divulgou isto em São Jorge pois era o único inscrito uns dias antes :-) ...sinceramente fiquei triste. os segundos antes de abrir o email com a novidade estava ansioso, depois de ver o resultado, estremeci, e fiquei triste. Parece estúpido mas foi assim! confesso que quase chorei, não o fiz por vergonha do meu cão que estava a olhar para mim. grande amigo! enrolei um cigarro e fui à rua infernizar a mágoa com o fumo do cigarro.

 

(...)

 

Jean declarou que tinha reparado na presença dela quando entrou no bar. Disse-lhe que notou o gesto da face encostada ao vidro. Joanne explicou que nesse momento estava a tentar ouvir o mar, imaginando-o enquanto via a espuma branca que surgia nas pedras negras.

Numa tentativa deliberada de lhe agradar, Jean propõe que fossem os dois mais perto do mar. A reacção de Joanne, sorrindo abertamente, agradou-lhe e também ele sorriu.

Levantaram-se e saíram lado a lado. Não se tocavam mas sentia-se o calor nos corpos de ambos pela proximidade.

Perante a situação, os amigos de Jean interrogavam-se entre si. Estavam pasmados perante os acontecimentos. – Mas como foi isto acontecer? Estivemos aqui e não reparámos em nada.

Rapidamente a sua curiosidade desvaneceu e continuaram na conversa.

Agora os dois dirigiam-se calmamente para junto do mar. Havia estrelas no céu, o seu brilho iluminava-lhes o caminho. Joanne exclamou que em Paris não tem tantas estrelas como os Açores – São lindas! (sorrindo de contentamento).

Naquela noite de Verão, sentados junto ao mar os dois poderam contemplar a luz cintilante das estrelas, o rasto da lua branca e bem definida que se desenhava no horizonte e ouvir e sentir a espuma do mar quando embatia na pedra redonda mesmo à sua frente.

Voltaram a perder as horas. Era tarde, sabiam-no. Havia pessoas em frente à porta do bar. Ao longe formavam pequenos círculos de figuras que se agitavam na claridade oferecida pelas luzes da praça. Jean procura o relógio que o seu pai lhe oferecera quando fez oito anos. Era um relógio de prata, tinha pertencido ao seu avô, finamente decorado mas que a noite não deixava definir os motivos. Um objecto pelo qual Jean tinha uma elevada estima. Afectivamente era a ligação emocional ao seu pai.

Viram as horas e perceberam a origem das figuras iluminadas na praça. Dois grupos distintos que a claridade da praça unia e que entre conversas e risos, olhavam à volta como se esperassem que algo acontecesse ou alguém fosse aparecer. Eram os amigos de ambos.

Sabiam que a noite, aquele momento iria em breve chegar ao fim. Olharam lentamente um para o outro e ao mesmo tempo – gostei de estar contigo a ver o mar. Ao reparar que tinham tido a mesma ideia, soltaram uma longa gargalhada, que os voltou a unir, aos dois, ao mar agora ainda mais macio e sereno que espelhava o fulgor da lua.

Jean levantou-se e esticou a mão para Joanne. Foi a primeira vez que os dois sentiram a gentileza das suas duas mãos juntas, apertadas.

Caminhando, quase sempre, em silêncio percorreram o caminho de volta até à praça. Ele de mãos nos bolsos e ela acariciando docemente o cabelo.

Ali estavam os seus amigos. Já ansiosos da espera. Ninguém falou. Como se tivessem compreendido, aceitando, a solenidade do momento de Jean e Joanne. Seguiram direcções opostas e em breve a claridade da praça foi substituída pelas luzes aqui e ali dos candeeiros altivamente dispostos nas paredes, até ao ponto em que apenas se viam na memória que ficou daquela noite onde, juntos, viram o mar.

Pela manhã Jean partiu de barco para a Graciosa. Anormalmente a viagem foi-se aproximando da encosta Norte de São Jorge. O dia está soalheiro, corria uma leve brisa que agitava as memórias de Joanne horas antes. Tinha passado muito tempo, demasiado talvez para a vontade de Jean. Durante a viagem pensava quando seria a próxima vez que estariam juntos?

O barco estava bastante próximo de São Jorge, era fácil perceber os recortes da encosta da ilha. Jean, no seu ávido impulso de conhecer as ilhas, resgata histórias antigas que a mãe que contou. Ali sob o sol que começava já a incomodar recorda-se da mãe lhe disser que São Jorge era conhecida como a ilha do dragão. Agora entendia porquê.

São Jorge mostrava-se no seu esplendor. Denunciava o dorso do dragão que irrompia sem peias do fundo do oceano. Verde-claro, outro verde mais escuro, cascatas que terminam na imensidão do mar e as árvores. Jean reparou que as copas das árvores são moldadas pelos ventos. Mais à frente é surpreendido pelo aparecimento de pequenas áreas de terra ao nível mar, dava para ver que eram habitadas. Virou a cabeça para trás e pergunta a uns dos primos – como se chamam aquelas terras ali? De pronto o primo responde – são as fajãs de São Jorge. São muito frequentes na ilha. Antigamente eram mais de 70 mas hoje em dia muitas delas estão abandonadas. Causas naturais e a emigração têm levado muita gente a deixar de viver lá. Essa que estás a ver é a Caldeira de Santo Cristo, ali à frente é a fajã dos Cubres.

Jean reconhece esse nome e de imediato volta a questionar sobre o nome dessa fajã. O seu primo, abeirando-se dele explica-lhe que Cubres é o nome de uma planta tintureira, antigamente era muito utilizada como corante para tecidos. A fajã tem aquele nome por ali existia muita abundância dessa planta.

- Então e como é que as pessoas chegam até ali. Há estradas?

- Sim, algumas delas sim. Mas outras só se conseguem alcançar através de caminhos antigos e carreiros pedestres. Se quiseres conhecer, depois de ver os primos podemos ir visitar algumas. Eu tenho amigos que vivem numa fajã mas é do lado sul, é a fajã de São João.

As histórias que o primo lhe contou deixaram-no curioso em relação as fajãs de São Jorge. Tinha consigo um guia que tinha conseguido num posto de turismo, sentou-se e começou a ler as informações que tinha acerca da ilha do dragão.

A viagem foi rápida. Jean nem deu pelo tempo a passar. Na Graciosa estavam os outros primos à espera, ansiosos por conhecer o primo parisiense.

Permaneceram na ilha Graciosa durante três dias. Os novos primos tornaram-se ao mesmo tempo nos seus bons cicerones, levando-o à descoberta da sua ilha. Mostraram-lhe as belezas naturais, o património e tudo o que a curiosidade de Jean despertava.

Na última noite na Graciosa, depois de jantar, Jean recolheu-se mais cedo. Apesar de estar feliz tinha saudades dos seus pais.

Estava cansado, sentia o corpo pesado mas não conseguia dormir. Sempre que fechava os olhos lembrava-se de Joanne. Tinha saudades do seu sorriso e a incerteza do reencontro inquietava-o.

Num pulo saiu da cama, vestiu-se rapidamente e saiu. Não sabia muito bem onde ia mas queria ir, era de noite e o brilho das estrelas apelava às memórias recentes. Num sítio isolado, parou e sentou-se calmamente, olhou em frente e viu o mar. Percorreu todos os momentos que passou junto de Joanne e, finalmente após um fôlego profundo que lhe encheu os pulmões de coragem, ligou-lhe.

Passaram as três horas seguintes a conversar. Ela também tinha saudades e desejava um reencontro em breve. Combinaram entre si os próximos passos a dar. Ele ia partir às oito da manhã e iria para São Jorge conhecer a fajã de São João. Despediram-se com um até já. Depois disso voltou para casa mas aquele desejo do reencontro e a angústia da espera não o deixavam dormir. Voltou a reler sobre a próxima ilha e preparou a mochila que carregava os seus haveres.

Pela manhã Jean mostrava-se entusiasmado. Na mesa do pequeno-almoço falava sobre o que tinha lido da fajã de São João. Ele, que estava de visita pela primeira vez, falava da fajã de São João como se a conhecesse. Ninguém conseguia perceber porquê ou a razão de toda aquela agitação matinal mas a amizade que os unia impelia a aceitar e mostraram-se ouvistes interessados, ainda que para eles não fosse motivo suficiente de tal rebuliço madrugador.

A viagem demorou pouco mais de duas horas, tempo demais para Jean que estava impaciente pelo reencontro. Joanne também estaria a chegar a São Jorge. Quando desembarcou, ela ainda não estava. Decidiu então esperar sentado à beira mar. Os primos tentaram perceber porque queria tanto estar sentado no cais, no meio de toda aquela agitação quando, horas antes se mostrava profundo conhecedor da fajã de São João. Apesar de tentativas sucessivas nunca conseguiram demove-lo de ficar ali sentado. Dava para perceber que estava feliz, o seu sorriso e o silêncio contemplativo denunciavam-no.

Na sua cabeça Joanne não tardaria a chegar e com isso em mente olhava o horizonte. Tinha razão. O barco já se avistava e em dez minutos Jean voltará a estar frente a frente com Joanne.

O barco pára para a saída dos passageiros. Jean levanta-se quando começam a surgir os primeiros viajantes, aparentemente mais calmo dirige-se para o local de desembarque. Joanne está a descer, tem a mão esquerda apoiada no ferro frio da protecção da ponte de descida e sorri quando ao longe vê Jean, quando os dois se encontram tocam-se na mão como fizeram na noite quando foram ver o mar. Ninguém falou, ficaram apenas a olhar-se e a sorrir durante um tempo.

Para os primos que viram este momento à distância, tudo agora parecia fazer mais sentido. Agora dava para perceber os acontecimentos da manhã. Deram-lhes espaço e permitiram que o momento decorresse sem interferências. Não tardou a que os dois se juntassem aos primos para então seguirem viagem até à fajã de São João.

Era ainda bastante a distância até à fajã. Já de carro tomaram a estrada regional imposta pela rudeza deste dragão mergulhado no atlântico.

A paisagem sempre bela, compreende uma vista panorâmica para o lugar mais alto de Portugal, o Pico. Durante a viagem os primos de Jean-Pierre aproveitaram para conhecer Joanne. O motivo do entusiasmo matinal, brincando com todos os acontecimentos que tinham ocupado a manhã.

Rapidamente avistara as indicações que os levariam à fajã de São João. A descida íngreme e estreita deixou os dois interessados com o que estaria lá em baixo. Pararam a no miradouro para contemplar a beleza ainda distante da fajã de São João.

Ao chegar estacionaram o carro por baixo do castanheiro centenário que existe naquele lugar. Havia pessoas a conversar junto ao café. Em frente repararam numa construção antiga e recheada de histórias, a ermida de São João. Logo ao lado um chafariz de 1896.

Jean conhecia a história deste lugar. A sua curiosidade e a agitação causada pela ansiedade do reencontro na noite anterior, permitiram-lhe ler sobre o património material e imaterial da fajã de São João.

Sempre juntos, Jean e Joanne, calcorrearam todos os espaços da fajã de São João. Durante a caminhada perceberam que este era um lugar especial. Já não são muitas as pessoas a viver ali todo o ano. Jean recorda-se das histórias que ouviu do seu primo durante a viagem até à Graciosa. Mas ali, notava que havia portas abertas. Por curiosidade espreitou numa delas e percebeu que é possível deixar portas abertas quando não se está efectivamente em casa. Parecias-lhe um pouco estranho. – Não será perigoso? Interrogavam-se, olhando um para o outro como se estivessem a trocar segredos.

Depois de tanto caminhar, e já cansados, abeiraram-se do cais. Iriam passar a noite em casa de uns amigos dos seus primos. Já estava tudo tratado.

Entre sorrisos e ideias soltas, Jean-Pierre decide que no dia seguinte iria pintar a imagem de Joanne e o pano de fundo seria a fajã de São João. Sentia-se inspirado por aquele lugar e Joanne, corando um pouco, sorriu anuindo.

A tarde já ia alta, o céu forrava-se de tons alaranjados, os verdes dos musgos nas pedras estavam exaltados e o horizonte era uma paleta de mil cores.

A tarde caiu, tranquila e languidamente sobre a fajã. Jean e Joanne, erguendo a cabeça em direcção ao céu, apertaram as mãos e deixaram-se absorver pela magia que lhes tomava o corpo num fim de tarde na fajã de São João.



publicado por CadernoDaNoite às 01:14 | link do post

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