Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

Não, o titulo não é nenhum trocadilho... Podia dizer-se que foi um verdadeiro festival de sopas! Aquilo foi de encher o prato, sentar, comer, levantar e voltar a escolher a seguinte.

Eu não podia deixar de escrever qualquer coisa desta “Festa da Sopa” porque foi uma iniciativa louvável da escola EBI do Topo na Sociedade Recreiro dos Lavradores de Santo Antão.

O mais curioso desta iniciativa foi que eu já não lembrava da última vez que comi sopa. No outro dia estava em casa, já tinha jantado há horas! e resolvi, é agora vou fazer sopa para amanhã, não passa de hoje. Comecei a cortar batatas, couve e cenoura, pus a panela ao lume com as batatas dentro…tinha tudo preparado (bem julgava eu!) e quando abri o armário onde devia estar o feijão só restava o espaço…feijão nada! Fiquei logo com um amargo de boca, parece que me tinham oferecido um doce e assim de repente voltaram a tirar. Ora isso não é nada justo?!

Voltei a guardar tudo no frigorífico e com um sorriso quase sinistro pensei: amanha compras o feijão, não tens por onde escapar.

Bem isto aconteceu na segunda-feira, hoje é quarta e o feijão contínua na loja do Sr. Nelson. Eu não fiz sopa mas hoje comi várias que dá para uns dias!

Quando entrei e vi quais as sopas que iam estar à disposição foi um regalo para os olhos.

Estava expectante que esta festa fizesse algumas das sopas que as pessoas foram mencionando no meu trabalho de campo: sopa de funcho (o funcho é uma planta de crescimento espontâneo que antigamente as pessoas usavam nos períodos de escassez de alimentos. Hoje em dia muitos ainda mantêm essa prática ora porque os hábitos se enraizaram ou porque esta planta faz uma sopa bastante saborosa e com poucos recursos) e a sopa de salsa (também muito utilizada pelos mesmos motivos).

Mas havia outras, por exemplo: sopa de couve em lume de lenha, de cogumelos, de soja, sopa da pedra, caldo verde, sopa fria de curgetes, caldo de peixe (outro exemplo de sopa tradicional) e sopa de agrião.

Acho que mencionei todas, de qualquer forma não consegui provar a totalidade. Não que não fizesse um esforço mas fiquei cheio quando acabei a sexta. Já não dava mais! O problema foi as castanhas cozinhas que nos deram de entrada…aquilo enche que se farta!

No final estava completamente satisfeito, provei as sopas que tinha maior curiosidade e o resto há-de ficar para outra vez.

O ambiente estava fantástico, professores, alunos, pais e algumas pessoas da comunidade proporcionaram momentos descontraídos nos leilões (ou arrematações como aqui são conhecidos), danças e coreografias ensaiadas por grupos de crianças e um bingo (aqui em quase todos os bailes tradicionais ou bailes de roda usam o jogo do bingo. É uma forma de angariar mais algum dinheiro e ainda alimenta a eterna esperança da “sorte”…no final apenas três fizeram bingo e a maioria exclamava “oh pá, só faltavam dois números”, eu incluído!)

Já tenho outro tema de conversa com as pessoas e das comidas tradicionais «daqueles tempos que a gente comia o que havia» só me falta provar o bolo com a raiz de “feito” (aqui as pessoas designam feito uma planta vulgarmente designada por feto, uma planta de crescimento espontâneo em zonas húmidas e nas matas). Fica uma curiosidade, antigamente quando a farinha de milho ou de trigo à venda nos comércios não era acessível a todas as famílias, usavam secar a raiz de feito, moíam e era usada na alimentação. Não conheci ainda ninguém que mantenha essa prática mas vou tentar provar…quem sabe haverá alguém que tenha tanta curiosidade de me mostrar como eu de provar!



publicado por CadernoDaNoite às 03:13 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Olá amigos,

Confesso que começava já a sentir saudades de comunicar.

Andei debruçado em leituras e entrevistas para o meu trabalho de etnobotânica mas nem tudo é trabalho! Aliás, pelo prazer que sinto no contacto com as pessoas e a forma espectacular como tenho sido recebido, ponho em dúvida se realmente é trabalho. Quanto muito será uma tarefa que me dá bastante prazer.

Nos últimos fins-de-semana tenho aproveitado também para conhecer outras fajãs, locais lindos e cheios de estórias para contar. Penso até que o meu fascínio por descobrir novas fajãs se deve às estórias que as pessoas me vão contando. A última que visitei foi a fajã de Entre-Ribeiras e no fim-de-semana anterior a Fajã do Norte das Fajãs. As duas encontram-se na encosta Norte de S. Jorge (com vista privilegiada para as ilhas Graciosa e Terceira) e representavam o sustento de muitas famílias do Topo e Santo Antão até ao sismo de 1980.

Actualmente estão abandonadas mas são tantas as descrições e as memórias que as pessoas me contam que ao chegar e ver as ruínas das casas, os caminhos e as pedras que ladeiam as parcelas de terreno (dispostas em socalcos ou em “combradas” como aqui são designadas) é inevitável tentar imaginar como seria a vida naqueles lugares.

A paisagem deixa transparecer o esforço do trabalho e reforça o próprio isolamento. Mas dá vontade de entrar, de conhecer e quando já cansado olho em redor, respiro fundo como que numa tentativa de absorver ainda mais daquele sítio e esgotar os sentidos, aí sento-me numa pedra e relaxo. Não há trabalho nem problemas que resistam a esta experiência!

Se porventura ficarem curiosos (o que sinceramente espero que aconteça), venham a S. Jorge que arranjam-se sítios para dormir. Eu tenho apenas um quarto mas como dizem por aqui “todo o que for chão faz-se quarto de dormir”.



publicado por CadernoDaNoite às 01:50 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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