Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010


É bem provável que nunca aconteça. Nem o megafone e ainda menos a minha candidatura.

O título deste artigo é apenas uma forma de exorcizar a minha ironia para situações que vão acontecendo nesta minha aventura açoriana.

Desculpem o modo simplista como irei apresentar as situações que vejo no dia-a-dia de S. Jorge mas, parece-me inevitável incorrer nesse imediatismo (e como é o meu blogue! enfim… tomei a liberdade).

Desde que S. Jorge é a “minha casa” tenho assistido a casos estranhos. O que me proponho é apresentar uma breve reflexão sobre dois deles: a “morte por estrangulamento” do ecomuseu de S. Jorge e, mais recentemente, o presidente da junta de freguesia de Santo Antão vai abandonar o cargo.

À medida que vou dedilhando este teclado e perante estes “casos” vem-me à ideia uma palestra do antropólogo Miguel Vale de Almeida (nos tempos em que era ainda um estudante despreocupado! E que bonitos são esses tempos): «o fim da antropologia»

Apesar de o título profetizar o declínio da antropologia, o resto do conteúdo é um exercício de reflexão (no meu entender, esplêndido!) acerca do que é a antropologia e a sua aplicabilidade nos mais diversos contextos.

A antropologia, no contexto das ciências sociais, não é a disciplina que goza de maior reconhecimento para o “público geral”. Mas é, no âmbito das ciências sociais, aquela que assume maior disponibilidade de se pensar a si mesma.

Basta isto para perceber que a antropologia não vai acabar. Aliás, encontra-se de boa saúde e recomenda-se o seu uso intensivo (para os mais cépticos proponho a leitura de um artigo publicado por João de Pina Cabral em Análise Social, vol. xxxiii (149), 1998 (5 o), 1081-1092).

Mas não me vou alongar nestes domínios. Outros estarão em melhores condições de abordar confortavelmente este tema.

Apenas me lembrei do «fim da antropologia» porque desde que cheguei a S. Jorge que tenho vindo a perceber que pessoas com projectos que envolvam “empowerment” vêm constantemente o seu trabalho condicionado.

Mas voltemos aos “casos”. O primeiro era um projecto complexo que envolvia (e envolveu de forma eficaz durante uns tempos!) todas as juntas de freguesia da ilha, não era apenas uma ideia “desenvolvimentista” desprovida de representação social, não!, representava um novo paradigma de desenvolvimento sustentável e uma proposta exequível para o desenvolvimento integrado da ilha de São Jorge. Todas as juntas de freguesia eram parceiros e todas se mostraram disponíveis para participar na valorização do seu património material e imaterial. Para dar uma ideia mais concreta, a comissão instaladora do ecomuseu promoveu uma actividade: os caminhos da memória, e as pessoas agarraram a oportunidade para redescobrir o seu próprio património. Ainda hoje alguns recordam o prazer que obtiveram daquela experiência e vejo no meu dia-a-dia, enquanto participante na comunidade local e enquanto “investigador” (ponho entre aspas para minimizar os riscos de me tomarem como pretensioso e porque sei ter ainda um longo caminho a percorrer até me tornar sujeito digno do título) que havia motivação para fazer surgir um projecto realmente inovador. Tão relevante socialmente que foi capa no jornal New York Times…mas o que aconteceu?! Interesses dúbios e esfumou-se no horizonte.

Mais recentemente surgiu a notícia que o presidente da junta de freguesia de Santo Antão (que se encontrava a cumprir o seu 2º mandato e com uma vitória eleitoral que não deixa dúvidas a ninguém) vai abandonar o cargo por entender que não estão reunidas as condições para executar o projecto que propôs às pessoas.

Trimestralmente a junta de freguesia emite o seu boletim informativo – O Relato, escrito pelo seu presidente e desenganem-se aqueles que julgam ser apenas mais um exercício de legitimação do poder (embora eu reconheça as implicações que terá na escolha político-partidária. Inevitavelmente que existem!).

Desde que cheguei a esta zona da ilha (em Fevereiro) tornei-me leitor assíduo desta publicação. Porquê?

Bem, fundamentalmente para saber as notícias que dizem respeito à fajã de São João. Através de um artigo publicado no Relato consegui algum do enquadramento teórico para o meu trabalho. E depois porque ao longo do tempo percebi que não era apenas dar conta das actividades em curso na junta (na perspectiva de auto-promoção) mas pretende, devolver às pessoas as respostas que estas anseiam. Dá feedback do projecto para o qual foi legitimado e faz apelo a uma cidadania activa e responsável. Dá o “empoderamento” às pessoas e isso é fundamental. A sua saída representa uma perda importante na rede de parcerias locais que devem ser consideradas no âmbito do meu trabalho (pois administrativamente a fajã de São João faz parte da freguesia de S. Antão).

Ora estando eu envolvido num projecto no âmbito do desenvolvimento local, estes dois “casos” interessam-me particularmente, desde logo porque me mostram que é possível trabalhar com a comunidade desde que lhes proponha um retorno das informações. Recuso-me a pensar apenas numa discussão pública inicial (como se usa para os “grandes” projectos nacionais com períodos determinados para apresentação das considerações) e depois sob o manto da toda “poderosa ciência” começar a desenvolver o trabalho e só voltar a dar notícia do andamento do projecto quando este acaba de sair da gráfica numa publicação (desculpem-me a vulgaridade mas isso é uma grande treta!!!).

O que estes dois “casos” me mostraram foi que realmente é possível executar o projecto de desenvolvimento no qual me encontro inserido mas as pessoas devem ser (efectivamente!) ouvidas, não apenas no início e final (para receber a glória estéril dos aplausos) mas ao longo de todo o processo. Devem conhecer todas as etapas, todos os pequenos detalhes. Inevitavelmente os objectivos devem ser negociados com as pessoas. Estas devem ser convidadas insistentemente (se for necessário) a participar e a enriquecer o trabalho…porque, no limite, se forem deixados de fora estaremos a despender energia em vão e pouco mais resta que a produção teórica desprovida de sentido prático.

Estes dois exemplos fracassaram e importa-me perceber o seu fracasso porque eles representavam, cada um à sua maneira, uma forma de lidar e comunicar com a comunidade o que para um iniciado em antropólogo (como eu!) é importante perceber de modo a procurar evitar que o trabalho seja exterior à própria comunidade. Para além de que demonstra as dinâmicas sociais que limitam (ou poderiam limitar) a execução prática do projecto para a fajã de S. João.

Mas constato outro pormenor. O projecto ecomuseu fez despoletar algumas associações como é o caso daquela onde me insiro, ou seja, criou dinamismo que possibilitou novas oportunidades de emprego.

E era isto que queria dizer. Agora vou precipitar-me vertiginosamente para um final com uma certeza: a antropologia não vai acabar. Mas como não podemos todos estar ligados à investigação na academia (…)

Temos os fins-de-semana, relaxem.



publicado por CadernoDaNoite às 22:19 | link do post | comentar

4 comentários:
De Vitor a 30 de Setembro de 2010 às 22:31
Imagino que a ideia seja que o eco-museu funcione como um espaco comum a todas as associacoes com vista ao desenvolvimento integrado da ilha.
Irao sempre existir obstaculos mas o importante e que sigas com esse espirito critico!
Bom trabalho!
Vou tentar ler sempre o teu blogue!
Abraco!


De Luis a 10 de Outubro de 2010 às 15:40
Antes de mais quero felicitá-lo pela forma brilhante e sintética como descreveu os dois casos em concreto.
De facto é com a mesma angustia que vi perder-se o projecto do Ecomuseu, e mais recentemente um jovem, que acima das partidarisses tem ajudado de uma forma isenta e continuada a localidade com a qual se comprometeu após o voto da confiança do seu povo.
Não olhe-mos apenas para o nosso umbigo, sejamos abertos ao desenvolvimento sustentável e criativo, só assim poderemos dar um futuro melhor aos nosso filhos...


De jorge pereira a 14 de Outubro de 2010 às 15:57
Pois é meu amigo, a tua experiencia já te ensinou que projectos como esses são muito difíceis de concretizar, quando alguém quer fazer algo é sempre bloqueado pela cor politica adversaria ou muitas vezes por interesses que ninguém percebe, mas há que encarar de frente essas adversidades e a esse presidente da junta apenas digo que não desista e lute nem que seja de megafone na mão .e se for necessário peça ajuda a um antropólogo experiente nessas adversidades... tu. O nordeste transmontano nunca mais se esquecera da tua passagem e da forma como lutas te contra as mesmas adversidades..
um abraço amigo Paijo


De David Ross a 24 de Novembro de 2010 às 11:50
Caminhar no sentido de tornar o envolvimento da população a voz de peso na decisão dos destinos da comunidade. Quantas vezes aí se ouviu e repetiu: “EMERGENTE E PARTICIPATIVO! EMERGENTE E PARTICIPATIVO!”. O programa Caminhos da Memória é a prova de que é possível trabalhar nas brechas da máquina estranguladora e o antropólogo o agente mais adequado para se misturar na multidão e ser o auscultador dessas vozes. É difícil e por vezes ingrato explicar que não é apenas RELAXE, mas que piada teria se fosse fácil?

Um abrasss


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