Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

esta história começa com «Ao entrar à porta Jean depara-se com Joanne, sentada no canto de uma mesa virada para a janela.» ...

 

 

Estava só. Naquele bar cheio de pessoas, Joanne permanecia solitária, imóvel e com os olhos fixos no mar. Não o ouvia! As cadeiras a rojar no chão, os risos das conversas dos outros, a música, retiravam-lhe o som das ondas a bater nas pedras negras. Sem dar por isso, às vezes aproximava a face do vidro da janela. Assim, debruçada sobre as pernas e tão próxima do vidro era perceptível o embaciado da respiração. Cerrava os olhos com força como se, desse modo, conseguisse ouvir o barulho das ondas.

Jean-Pierre pára. Por momentos fixa os seus olhos nos gestos suaves de Joanne. Junto à porta de entrada Jean apoia o ombro direito. Alheio às pessoas que o acompanhavam ficou ali a olhar ternamente para Joanne, como se a estivesse a contemplar.

Num gesto brusco, o seu primo segura-lhe o cotovelo, estava a chamá-lo.

-Entra! Vamo-nos sentar. Há uma mesa ali ao fundo.

Jean acedeu à proposta. Dirigiram-se para a mesa. No jogo das cadeiras, escolheu aquela que lhe permitia ver Joanne. Permanecia junto ao vidro. Todas as conversas lhe pareciam inúteis, não conseguia retirar os olhos daqueles gestos do outro lado da sala. Quis falar-lhe. Mas ao mesmo tempo teve receio de quebrar a beleza daquele momento. Ficou sentado.

Os amigos repararam no seu comportamento. Perguntaram o que seria tão importante para que ficasse assim, tão apático. Jean, um pouco embaraçado, encolheu os ombros e sorriu, evitando melhores justificações. Os outros não iriam entender os seus motivos. A beleza daqueles gestos não se explicam e Jean não queria partilhar aquele momento com ninguém.

Aquela pergunta levou a que retirasse por momentos os olhos de Joanne, pegou no seu copo e deu um trago. Decidido a participar na conversa, falou sobre a sua vinda aos Açores.

- É a primeira vez nos Açores. A minha mãe tinha-me descrito a beleza natural das paisagens mas confesso que me era difícil imaginar tudo o que me dizia. Por vezes chegava a recusar-me a acreditar que estas ilhas tivessem o encanto com que minha mãe as descrevia. Agora, estou aqui, e apesar de ainda não ter tido oportunidade de deambular por todas as belezas naturais que os folhetos turísticos apresentam, começo a perceber melhor as conversas antigas com a minha mãe. Quero conhecer todas as ilhas! Quero conhecer as pessoas, perceber os seus modos de vida, a sua história. Como era isto antigamente?

O seu primo Miguel respondeu, – Calma rapaz!, aproveita a noite! Vais ter tempo para dar a volta às nove ilhas encantadas do Atlântico. Por agora façamos um brinde! Aos Açores!! (levantando-se da cadeira e erguendo firmemente o copo).

Todos lhe seguem o gesto. E beberam como se naquela golada alimentassem os anseios de Jean e o seu interesse genuíno pelas ilhas.

No final voltaram a sentar-se e a conversa decorreu animada. Jean de tempos em tempos reparava nos gestos de Joanne. Esta continuava sentada. Já não estava inclinada sobre a janela. Também ela se encontrava agora a conversar com os amigos.

Jean reparou nos seus longos cabelos que lhe caíam sobre o peito, na forma dos seus olhos quando sorria e nos seus lábios perfeitamente torneados. Estavam pintados de vermelho. Percebia-se bem quando a luz incidia. Têm um brilho maravilhoso, pensou.

A noite prosseguia tranquila. Era uma noite de Verão. Estava quente, húmido. Para Jean às vezes tornava-se difícil respirar, não está habituado, era demasiado abafado. Ainda assim não o suficiente para o deixar desconfortável. Pelo contrário, o que ele queria nesse momento era absorver mais ar, sentir as diferenças com a sua cidade.

Nesse momento a cadeira ao lado de Joanne ficara vazia. Subitamente Jean levanta-se e dirige-se para lá. Pelo percurso entre as cadeiras pensou: mas que estou eu a fazer? O que lhe vou dizer? Mas estas dúvidas não foram motivo para o desviar do seu propósito. A sua vontade de lhe falar foi suficientemente forte para procurar a pessoa que lhe captou o olhar.

Joanne estava distraída consigo mesma, olhava atentamente para as mãos, entrelaçava os dedos uns nos outros e nem reparou na presença de Jean. Ele, em pé, confuso e nervoso pela situação tocou-lhe com a ponta dos dedos no ombro esquerdo. Ela desperta sobressaltada, ergue a cabeça na direcção de Jean e liberta um “ai” (que se estivesse arrepiada). Jean, num gesto rápido, estende as suas mãos e desdobra-se em desculpas.

- Perdão, perdão! Não te queria assustar.

Joanne nesse momento esboçou o seu sorriso que tranquilizou Jean. Ele sentou-se na cadeira vazia, ajeitando-a. Estavam agora frente a frente, os seus olhos tocaram-se demoradamente. Assim tão próximos, Joanne parecia ganhar um brilho ainda mais especial. Jean estava realmente encantado com aquela imagem.

Começaram a conversar. Os sorrisos ora de embaraço ora de cumplicidade iam surgindo no decorrer das horas. Ali, naquele momento, os dois perderam as horas. Não havia Tempo, eram apenas aquelas duas pessoas a conhecerem-se, a apaixonarem-se. (CONTINUA...)



publicado por CadernoDaNoite às 20:34 | link do post | comentar

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