Domingo, 10 de Julho de 2011

E aí está ele! O grande tarzan! Sua magnificência, o reverendíssimo senhor tarzan. Na sua caminhada triunfante. Eu, sem quase dar conta, reparo no seu andar. O pé esquerdo gira ligeiramente para dentro. Sorrio. Cada passo seu parece aproximar-se vertiginosamente para um desfecho que eu tanto desejo. Conto os passos, um, outro, mais um e eu penso, é agora, vai beijar as pedras da calçada. Se isso acontecer não me vou conter no riso, afinal, era o que queria.

O tarzan não tombou. Ah, azar! Quem sabe um dia eu ainda consiga ver as suas fuças a desarranjarem-se nas pedras.

A esta altura muitos de vocês devem estar a pensar: este tipo pirou de vez! Eu digo-lhes, não, ainda não é desta. Estou bastante lúcido e, não, não fumei coisa nenhuma. Este tarzan existe, apenas não se chama tarzan. Tarzan é o nome artístico, o preferível…

Mas, vamos lá inventar uma história para o dia em que o tarzan veio à cidade.

Lá vinha o tarzan de pasta na mão. É engraçado, até um ignóbil como o tarzan, de pasta na mão “parece” um doutor. Bem isso para os distraídos, cá para mim não passa de mais um sinal da sua eterna fraqueza arrogante. Que, confesso, me arrelia bastante.  

Já me dei ao trabalho de reparar nos seus papéis, nas notas que tira. Mesmo que lhes queira explicar é-me difícil. Aquilo é só rabiscos. A cada palavra um risco por baixo, isto se não levar dois e três rasurados. Já para não falar de setas que vão engroçando linha após linha. Enfim uma tremenda confusão. Mas isso é compreensível. O tarzan não faz a mínima ideia do que está para ali a balbuciar. Às vezes dá-me vontade de perguntar mas o que estás para aí a fazer pá? Então mas vens aqui para desenhar? Mas quando penso nisso é em brasileiro, o que eu não entendo porquê. Será porque é mais agradável? Não sei, mas sempre que penso nisso fico a rir-me e não quero estragar tudo fazendo a pergunta. Analisando bem as coisas, não ia resolver nada, portanto não se fala mais nisso.

A cadeira rangeu. Rangeu? Ou foi…?

- Nahh, deixa de inventar, não se vê que foi a cadeira. Não! Espera, o tarzan corou. De qualquer forma vou permitir-me a dar uma gargalhada. Depois dessa interrupção talvez o tarzan diga: «como eu estava dizendo». E eu volto à conversa.

Não aguento. Olho à minha volta, procuro ao acaso algo para me distrair. Nada do que vejo me desperta interesse. Penso para mim, afinal não preciso de nada, já estava distraído. Olha que fixe.

Fixo os olhos na rua. Um carro, e mais outro. Oh, cuidado, este tinha luzes por baixo. Novamente vejo-me a mergulhar nas minhas ideias, a voz do tarzan cada vez mais longe, mais longe num último esforço de o ouvir, resisto. Mas aquele carro estranho deixou-me intrigado. Não aguento durante muito tempo. Porque diabo há-de alguém querer estragar o pobre carro com néons azuis?! Porquê?! Se é assim porque não usa luzes de natal ao pescoço? Gostos!!

Nesse instante o tarzan fez-me uma pergunta. Não percebi bem, acho que tinha que ver com comunicação. Apeteceu-me responder: oh sim está perfeito, viste aquele carro com luzes de natal?! Achei melhor não. Entendi que poderia prejudicar a nossa comunicação. Respondi então com um ligeiro aceno de cabeça e uma vocalização estranha, partilhada entre boca e nariz «um». Coisa apenas semelhante quando estamos dentro de uma gruta. Ou um grunhido, talvez!

Ele não reclamou. Ora aqui está uma bela comunicação. Com um simples ronco o tarzan fica satisfeito por mais uns instantes e eu posso continuar a olhar. Estou farto deste tarzan…

 



publicado por CadernoDaNoite às 15:18 | link do post | comentar

1 comentário:
De Anónimo a 4 de Setembro de 2011 às 23:26
Sequestradores

Fincaram me a cara à televisão que me cega.
De seguida, com a foice rasgaram me o peito.
Aiiiii, quis gritar a revolta tão alto
Que se ouvisse nos poços negros de Meca

Mas a mão Direita apertou me o pescoço.
Diz que é Deus e quer mais dinheiro.
A Esquerda espetou me no ouvido uma Kalash.

Ainda assim, escuto o rugir das Madeiras podres
Com os Passos do Coelho com dentes vampíricos.
Escuto o violador a recitar filosofia grega,
Até parece que ensinou Sócrates.

Sinto algo quente a escorrer pelas pernas.
As obscenas irmãs, filhas de Hitler e Napoleão,
Com os seus saltos altos, esmagam me os testículos.

O português


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