Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

É de noite. As sombras das paredes brancas avançam sobre todo o meu corpo, assim, sem peias nem misericórdia. O calor do sofá sufoca-me a respiração. Tenho de sair de casa. Quero sair deste sítio, vou para a rua! É de noite, não há barulho, não vejo nada.

Um pé imita o outro e vou seguindo o caminho. Olho para o chão, como se fosse aí que se encontram as respostas para o que estou a sentir. Não é, sei-o bem, mas não consigo levantar a cabeça. Está pesada. Sinto o seu peso sobre os ombros e caminho.

Caminho languidamente pela escuridão. O silêncio ecoa na minha cabeça e atrasa-me o passo. De repente ouço um barulho que me faz despertar e voltar à consciência, olho e não vejo nada, está escuro. Merda! estou perdido!

Não sei como voltar para atrás. Como cheguei aqui? Onde estou? Novamente o eco do silêncio assombra tudo à minha volta. Tiro os sapatos e caminho descalço. A terra está húmida, é suave para os meus pés.

Ao longe ouço o barulho do mar, a sua força a bater nas rochas faz-me avançar mais rápido. Eu quero ver o mar. Eu gosto do mar. É forte e impetuoso e eu estou fraco e com o corpo dormente.

Encontrei o mar, desço rapidamente pela vereda e sento-me numa pedra a admirar a espuma branca. Aqui estou perto, sinto as gotas a respingar-me a cara. O silêncio foi-se, agora sinto-me calmo.

Perdi as horas que estive a ver o mar. Mas o que importa isso?! Agora volto para junto das paredes brancas, quem sabe as suas sombras desapareceram na minha ausência. No caminho de volta olho para as casas ao longo da estrada e os cães ladram quando me vêem. Eles não ladraram quando eu fui ver o mar. Será que não deram pela minha presença!?

Tudo está calmo agora, sopra uma leve brisa fresca que me ajuda a respirar. Eu gosto do mar!

Caminho pela noite silenciosa e encontrei o mar. Tal como um vagabundo ruma sem destino nem sentido e encontra sempre algo que merece um olhar, eu vi o mar.

Cheguei a casa. Reparo que deixei a porta escancarada, num gesto súbito, entro e vou para a cama. Eu quero dormir, quero sonhar com o mar.     


tags:

publicado por CadernoDaNoite às 02:51 | link do post | comentar

3 comentários:
De Anónimo a 30 de Maio de 2011 às 00:39
Prisão & Finita & Cª, Lda.

Subo ao Machado de Castro
Fixado às paredes de tufo.
As pedras olham me &
Espelham o que eu sou.

Whisky, cerveja & cigarros
Abafam me as cicatrizes &
Num mar de Sangria mergulho &
Abraço italianas, argentinas &
A liberdade inalcançável &
Festas & Amigos & apanho o Sol.

Mas que duras são as lajes frias &
O vómito pérfido cheira mal.
Nesta Rua Tesão de Mijo
Todos se riem, todos têm pena
Mas quem está sozinho, sou eu.
O ruído continua exacerbado &
Não me consigo mexer,
Não me consigo libertar.

A Gerência


De CadernoDaNoite a 30 de Maio de 2011 às 03:19
Vou quebrar a minha "regra de ouro": nunca fazer comentários aos comentários do meu blogue. Mas francamente o que escreveste foi BRUTAL. Adorei! Obrigado por partilhares isto.
Manda vir mais dessas que é bem ao meu estilo de leitura.
Abraço



De Alexandra Carvalho a 15 de Agosto de 2011 às 19:17
Eu de tempos a tempos, dou uma vista de olhos no teu blog, e todas as vezes gosto um bocadinho mais, os teus textos são muitos bons, com uma sensibilidade enorme.


Comentar post

mais sobre mim
Outubro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

duas ou três partes a seg...

Parte I

Praia

O tarzan e outras coisas

O Mar

crónicas de uma caminhada

Lugares, Memórias e Compo...

Entre dois mundos

Festa da Sopa

Fajã de Entre-Ribeiras e ...

arquivos

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Abril 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

tags

todas as tags

links
Posts mais comentados
blogs SAPO
subscrever feeds