Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

Aos poucos vou conhecendo alguns dos lugares mais bonitos desta ilha.

Ultimamente tenho tido a sorte de fazer caminhadas e ir descobrindo sítios que causam impacto visual a qualquer incauto. Está claro que não vou sozinho. Mesmo que quisesse não ia chegar nem perto dos lugares onde tenho passado.

É um prazer ir descobrindo esses locais, conhecer alguns pormenores da sua história e contemplar a paisagem em redor. Normalmente quando chego lá, fico com uma sensação de êxtase e quase sempre apetece-me dar um grito “cheguei!”, é evidente que não o faço, por vergonha dos meus amigos mas é o que me sugere o momento inicial da chegada e o primeiro relance dos olhos em torno da natureza envolvente.

Chegar lá nem sempre é fácil e as minhas calças pagam a minha falta de habilidade e medo de descer sítios íngremes e potencialmente perigosos. Quando me deparo com esse tipo de passagens quase sempre vou de rabo assente no chão e agarro-me a tudo o que for possível (às vezes quase nada!). Resultado?! quando chego a casa as calças são lavadas a 60 graus.

Todos estes locais foram, ou são, conhecidos desde sempre por pescadores destemidos, noutros casos são “atalhos” que as pessoas utilizavam antigamente para encurtar distâncias.

Tenho aproveitado para tirar umas fotografias, se bem que, sinceramente o que faço é tirar uns retratos e pouco mais, mas começo a desenvolver o gosto pela fotografia. Esta ilha, de facto, proporciona imagens brilhantes a quem gosta desse tipo de experiências.

Na minha opinião essa seria uma vertente (mais uma!) que se deveria apostar em relação ao desenvolvimento e promoção turística em S. Jorge, sobretudo ao nível da paisagem natural e social, porque tanto quanto sei, relativamente à observação de fauna, exceptuando as lagoas de água salobra da fajã Caldeira de Santo Cristo e Cubres, não foi ainda identificado mais nenhum lugar de especial importância.

São Jorge está ainda tremendamente mal organizada em relação ao turismo. Outro dia estava a ler um jornal e notei que as viagens de cruzeiro no Verão já estavam programadas. Não me lembro dos números exactos mas das 108 paragens previstas em todo o arquipélago, 63 serão em S. Miguel, à volta de 20 para o Faial e Terceira e o resto distribui-se pelas restantes ilhas. Sei que a parte que sobra para São Jorge é 1. Sim, perceberam bem, no Verão de 2011 São Jorge irá apenas receber um cruzeiro.

Pode parecer estranho mas para quem, como eu, se encontra a trabalhar num projecto de desenvolvimento local com supostas implicações ao nível do turismo é bastante fácil perceber a razão da discrepância nos números.

Existem várias razões mas, na minha opinião, a questão estrutural será a falta de organização da oferta. Em São Jorge o que não falta é potencial para desenvolver o sector e com uma oferta diversificada que nem precisava de estar limitada à sazonalidade…mas o que é que acontece, perguntam vocês?! Nada. Parece que as “sobras” das outras ilhas chegam para satisfazer a necessidade Jorgense. Aliás nem sei se podemos definir como uma verdadeira necessidade porque simplesmente não parece haver aptência de lhe sentir a falta.

Na minha opinião, e daquilo que vou experimentando, a principal causa é a excessiva partidarização das iniciativas. Tudo aqui conflui em quezílias dos dois principais partidos e verifica-se um “esvaziamento” no espírito empreendedor de diversificação do tecido económico (tendo em vista a criação de novos empregos ou gerar mais riqueza).

Outra das questões, igualmente difícil de resolver, é a falta de ligação da comunidade (poderes locais incluídos) em relação ao património. Mas nem tudo é um cenário negativo, à medida que vou contactando com as pessoas dá para perceber que o paradigma, sobretudo ao nível dos discursos, começa a alterar-se. A acontecer será uma verdadeira transformação social. Estou convencido que aos poucos a relação ambígua (por exemplo, por parte dos mais jovens e da relação destes com o património) e contraditória (dou o exemplo dos poderes locais que fazem discursos que mostram disponibilidade mas que não concretizam e tudo fica a arrastar-se no tempo) em torno do património poderá redefinir-se, desenvolvendo um conjunto de atitudes e comportamentos de vinculação que promovam o reforço da memória e da identidade colectiva.

É uma situação complexa e não quero parecer um pseudo-teórico fundamentalista que apenas sugere a instrumentalização dos elementos culturais às modas turísticas mas é um facto e não podemos relativizar a questão de que São Jorge caminha a passos largos para uma situação difícil.

Esta ilha reúne todas as condições para um desenvolvimento sustentável. Desde logo a localização (grupo central e no centro do grupo central), mar (inevitavelmente!), natureza e paisagem (que para mim são conceitos distintos), estórias interessantíssimas, comida, qualidade de vida, Tempo (aqui há tempo para ter Tempo… cada um pode construir a sua cadência subjectiva).

Enfim, estas vão sendo as minhas experiências em São Jorge e como diria um “brilhante poeta” dos nossos tempos (que por acaso é meu vizinho no Continente e felizmente (digo eu!) para a sanidade mental de todos nós nunca escreveu um livro): «mandem-me calar se não eu rebento»

Aproveitem as promoções baratuchas para os Açores e venham ver isto.



publicado por CadernoDaNoite às 03:12 | link do post | comentar

3 comentários:
De Rúben Reis a 28 de Janeiro de 2011 às 17:00
"Aproveitem as promoções baratuchas para os Açores e venham ver isto."

Estou muito seriamente a pensar nisso.... Vamos ver!!

Abraço!


De Alexandra Carvalho a 30 de Janeiro de 2011 às 18:59
Eu por acaso tenho imensa curiosidade em conhecer os Açores mas não é para já. Mas indo, gostava de conhecer todas as ilhas...


De claudia fraga a 9 de Fevereiro de 2011 às 00:37
E é triste ouvir em alguns postos de turismo deste arquipélago a resposta que dão quando perguntamos o que há de interessante em S.Jorge para se ver... resposta "Em S.Jorge? O barco para o Faial e Pico"!!!!!! Só me faltam conhecer 3 ilhas, mas das que conheço S.jorge esta nas ileitas!!! É certo que sou suspeita :) mas esta ilha é linda e tem tanto para ver e conhecer.... Talvez a sua beleza se deva por ser uma das menos exploradas e das mais virgens...
Fiquei com um sorriso nos lábios quando li a parte das calças todas sujas no rabo :) e das pernas arranhadas não falas? :) Para quando a próxima aventura?!


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