Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Ora cá eu estou de volta, para o inicio de um novo ano como “espécie de antropólogo” em S. Jorge. Depois de uma pausa para as festas, 2011 está aí e é preciso fazer pela vida. Considerando a experiência do ano anterior as expectativas são boas (digo isto abraçando uma tremenda ingenuidade, a esperança que uns dias de folga podem suscitar…mas essa discussão já é longa e demasiado danada para ser escrita. Se quiserem saber mais basta um convite e uma garrafa de whisky de 15 anos). Apetece-me fazer um balanço de 2010. No geral foi um ano positivo, contrariando a tendência de anos anteriores vim para um sítio que não conhecia, fiz novos amigos, de algum modo reforcei as antigas amizades (a ausência destrói mas também consolida aquilo que designamos como “amigos”) e especialmente consegui trabalhar na minha área de formação. Finalmente podia dizer que andava a trabalhar como antropólogo. Para aqueles que felizmente nunca sentiram (ou ainda não sentiram!) o sabor amargo das expectativas desmoronarem-se como uma torre de babel esta conversa diz muito pouco mas pessoalmente foi um momento único e talvez por isso considero São Jorge um sítio tão especial. Mas ser antropólogo em S. Jorge?! Do que se trata? Bem posso dizer que os primeiros seis meses foram difíceis, desgastantes e infrutíferos. Aliás devo confessar que muitas vezes pensei em comprar o bilhete de volta. Felizmente para mim tive alguns amigos que me aconselharam e me ajudaram a repensar a minha posição (a todos eles, uma vez mais, agradeço o seu apoio). A minha entrada desastrada nesta comunidade foi marcada por dois factores distintos: os imprevistos (que ninguém poderia à partida imaginar) e um sem número de incorrecções (resultantes do ponto anterior) às quais chamei atenção a quem de direito mas que nunca prestaram a devida atenção. Para evitar polémicas desnecessárias vou esclarecer apenas os imponderáveis. Em Fevereiro quando fixo a minha residência no Topo e contacto pela primeira vez com as pessoas foi desastroso. Se entrava no café as pessoas (homens) calavam-se. Era automático! As conversas eram abruptamente interrompidas e seguiam-se longos momentos de silêncio. Quando entrava dava os devidos cumprimentos de circunstância e recebia de volta um vagaroso “bom dia” ou “boa tarde”, deixando transparecer a desconfiança e o desagrado com que me debati durante os primeiros dias. Não percebia a razão de tamanho incómodo. Tinha consciência que eu era um estranho que entrava pela porta dentro e que eventualmente podia afectar as interacções normais que se geram neste tipo de espaço mas ficava por compreender porque razão alguns saíam imediatamente ou iam para a rua continuar a conversa, longe da minha terrível presença. Na minha ingenuidade o máximo que poderia acontecer era ignorarem-me, não quererem saber sequer da minha existência. Mas eles não queriam ignorar-me. Entretanto explicaram-me que aquele comportamento era deliberado. Eu fui uma ameaça! Precisamente no dia em que peguei no meu carro acabado de adquirir (ainda hoje quando penso no valor que paguei fico com tonturas. A princípio ainda pensei que o vendedor olhou para mim e viu um continental endinheirado que podia proporcionar um belo negócio. Mas não. Depois percebi que os preços que se praticam são muitas vezes sobrevalorizados. Antes da compra ainda experimentei um Peugueot com uma cor muito manhosa cuja marcha-trás tinha zarpado para parte incerta levando consigo os travões…mas tinha tecto de abrir!) … quando ia na viagem da Queimada para o Topo ouvi na rádio que estavam a ser julgados no tribunal de S. Jorge seis indivíduos por tráfico de droga. Esta notícia a princípio não me influenciava em nada e nem pensei muito nisso. Eu não podia estar mais errado! Este acontecimento foi de facto o imponderável que condicionou a minha entrada e os relacionamentos que fui tentando desenvolver para o meu trabalho. Os primeiros dias, os primeiros meses fui estudado da forma mais veemente possível. Inventaram-se todas as coisas que alguém possa imaginar sobre a minha figura. A determinada altura corria pela comunidade que eu tinha o meu currículo afixado na esquadra da PSP das Velas como o agente da PJ que estava infiltrado (quer dizer eu estava infiltrado, supostamente é para ser segredo como se vê nos filmes americanos mas o embuste era público numa esquadra perto de si). Na tentativa de me dar a conhecer, comecei a frequentar uma sociedade (para quem não conhece são associações ou grupos recreativos, de índole musical, que para ganhar uns trocos têm sempre um bar e organizam bailes tradicionais e festas desse género para animar a malta. Em todas as localidades duas ou mais e sobrevivem muito devido à rivalidade entre si. Por exemplo no Topo existem duas: a Recreio Topense e a Clube União. Os músicos que toquem numa delas se por algum motivo trocarem são logo esconjurados. Geralmente a ligação a determinada filarmónica encontra-se relacionada com a questão de tradição familiar) e durante o tempo que lá permanecia as pessoas faziam-me as mesmas perguntas duas e três vezes na mesma noite acerca do que era a antropologia e como tinha ido parar à fajã de São João e a S. Jorge. A resposta tinha de ser igual nas diferentes horas. Eu era obrigado a pensar muito bem as palavras… e tantas vezes que eu descrevi o método de pesquisa da antropologia! Eu dizia o que podia fazer um antropólogo mas nunca mencionei que fazia “investigação” porque dizer isso era sinónimo de polícia. Perdi a conta às vezes que falei sobre os meus objectivos e a forma como me propunha a executá-los. Estas e outras deram-me vontade de rir às gargalhadas. Fartei-me de rir com estas peripécias. O certo é que todos estes episódios insólitos serviram para a comunidade perceber quem era o sujeito novo. Mesmo no contacto com o terreno com as pessoas mais velhas as perguntas redundavam no mesmo. Quem era eu? O que queria deles? Para que serviam aquelas perguntas? ...tudo porque «diz-se por aí que o mestre anda aí a fazer perguntas mas afinal quer é descobrir se há droga aqui e depois quando chegar ao continente manda prender essa gente» e rematavam a conversa com «…eu falo consigo porque eu não tenho nada a esconder. Eu não sei nada disso». Mesmo depois de todas as explicações exigidas houve pessoas que me sugeriram a nunca mais as contactar porque não acreditavam em mim e não queriam ter nada haver comigo. Numa situação um individuo, em jeito de conselho ou aviso, contou-me a história de jipe da GNR que outrora fez operação STOP nesta zona da ilha e foram ameaçados, despidos e deixados a pé na beira da estrada (mais tarde quis confirmar este episódio e parece que de facto esta situação ocorreu mesmo). Alertou-me também para a possibilidade que “a lua traz pedras”. Localmente dizer que a “lua traz pedras” é um aviso que devemos pôr-nos a andar rapidamente para bem longe dali porque a qualquer momento da noite pode surgir uma saraivada de pedras. Os primeiros seis meses foram passados nesta demanda de conseguir a confiança das pessoas. Eu bem que tentava não valorizar em demasia estas situações mas condicionou sobremaneira a qualidade das informações de terreno. Por mais que tentasse estruturar as entrevistas e por mais que tentasse desconstruir esta imagem pré-concebida resultava sempre em insucesso. Apesar de difícil e tortuoso foi um caminho riquíssimo em termos pessoais e profissionais. Não desistir fez-me, indubitavelmente, crescer e aprender. Precisamente na noite de 16 de Dezembro, quando devia estar a fazer a mala e a preparar-me para a viagem no dia seguinte acabei como convidado na casa de um dos meus maiores “observadores” a beber aguardente e a conversar. A determinada altura perguntou-me se no início eu havia reparado que ele estava sempre a observar-me e a tentar perceber por onde é que eu andava? Eu disse-lhe que sim, que tinha reparado na sua atitude e que compreendia. Ali, naquele momento, eu tive a certeza que fui bem aconselhado (algo que também nunca duvidei) e sobretudo reforçou a ideia que vinha consolidando nos restantes meses, valeu a pena os momentos em que chorei de raiva (por não conseguir estabelecer e consolidar os contactos com a comunidade, por não conseguir desconstruir a imagem do PJ) …porque apesar de estar alertado para as dificuldades que podem surgir quando nos propomos ao trabalho de campo, por mais que saibamos que não é possível controlar todos os factores em disputa nas relações interpessoais e que podem surgir entraves que não são culpa do antropólogo…tudo isso em doses excessivas e extensas acaba por afectar de uma forma difícil de explicar. Chega-se ao ponto, como eu fiz repetidas vezes!!, perguntar a mim mesmo: “que merda ando eu a fazer aqui?!”. Já depois de estar em casa dos meus pais, tantos meses de comunicação por telefone, tantas saudades que sentia da família, amigos e namorada dou por mim a pensar “o que estarão aqueles tipos a fazer?”. Apesar do prazer que é voltar a casa e ser carinhosamente recebido dei por mim dividido entre duas realidades completamente distintas. Relembrando uma ideia de Nigel Barley em O Antropólogo Inocente, os antropólogos têm um vício muito grande de aborrecer os outros com estórias dos contextos que contactaram. Tudo parece pretexto para introduzir “lá eles…”. Eu dei por mim a fazer tentativas deste género. Talvez isso seja bom ou talvez não, sinceramente não sei. Quem sabe um dia consiga responder a isso, por agora apenas sei que é bom estar “entre dois mundos”. Hoje mesmo (4 de Janeiro 2011) ao cumprimentar uma pessoa da fajã de São João ele me dizia «pensava que já não ias querer voltar», eu não dei uma resposta objectiva apenas me limitei a dizer «É mais um ano» mas na minha cabeça estava a ideia de que eu tinha de voltar, ainda não fiz tudo o que queria nesta ilha, há coisas que ainda quero tentar perceber. Eu não podia deixar isto agora. Não, depois de tantos entraves e esforço. Eu sei que o conforto daqueles que gostam de mim do outro lado será sempre um refúgio onde me posso acomodar quando não tiver mais opções mas, por agora, é aqui que devo estar.



publicado por CadernoDaNoite às 00:46 | link do post | comentar

6 comentários:
De Alexandra Carvalho a 8 de Janeiro de 2011 às 17:53
Achei muito interessante o teu texto, lembra-me um pouco aqueles jornalistas que se aventuram país fora ou mundo fora a tentar fazer boas reportagens, a aceitação nem sempre corre como esperam. O que mais me intriga, acho que é essa aceitação confusa e desconfiada por parte dos ilhéus daí, e é intrigante, porque aqui na Madeira é tudo bem diferente, não sei se será pelo desenvolvimento que aqui se deu com maior ênfase, não sei, talvez, a verdade é que aqui, os ilhéus (eu) podem olhar à primeira mas depois deixam-se cativar pelo estranho que agora por aqui anda, e não é preciso muito para se deixarem cativar... Espero que agora consigas desenvolver o teu trabalho da forma como queres.
Bom ano 2011.


De João Paulo a 11 de Janeiro de 2011 às 14:47
Olá Bruno é o João, de Mirandela. Pá sejamos sinceros, tu tens ar de PJ que é que queres...


De David Ross a 17 de Janeiro de 2011 às 11:55
Revi-me nesta leitura. Penso que é o melhor elogio que posso dar ao texto e seu autor.

Abrass


De Liliana Gomes a 19 de Janeiro de 2011 às 17:27
"Se quiserem saber mais basta um convite e uma garrafa de whisky de 15 anos"... Eu alinho :)

Desejo-te boa sorte para este ano.
Bjtx*


De Rúben Reis a 28 de Janeiro de 2011 às 16:58
Amigo, vizinho e companheiro destas andanças de estar "longe de casa"... sei que a minha situação não é nada igual à tua mas compreendo-te a 100%!

Encara isso como uma experiência de vida, embora por vezes seja difícil superar, e nunca te esqueças que a tua família e os teus amigos estão a apoiar-te neste projecto... Desejo-te muita boa sorte, assim como eu desejo a mim próprio, quando vim para Peniche agarrar de unhas e dentes um sonho profissional antigo e assim como eu desejo às pessoas minhas/nossas próximas que tu bem sabes quem são!!

Neste final e início de ano não tivemos hipótese de conviver, nem com um "whisky de 15 anos" nem com uma "mine", mas quero que nunca te esqueças que por muito que estejamos longe (sendo isso agora muito relativo com a existência das internet's ") os amigos estarão sempre presentes!...

Ah, e espero por ti um dia aqui por Peniche que, "por agora, é aqui que devo estar"..... e para ires relaxando um pouco, aqui fica o meu blog: http :/ a-tua-vida-nao-te-chega.blogspot.com /

Abraço!


De claudia fraga a 9 de Fevereiro de 2011 às 00:58
:) Iras ser sempre conhecido pelo PJ :P


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