Domingo, 24 de Outubro de 2010

Meu caro leitor, este artigo, pode ser susceptível de impressionar a boa moral das boas pessoas. Está escrito num registo que muito aprecio na literatura ou na música e é apenas um exercício de fantasiar a realidade (ou só fantasiar!). No caso de despoletar a vossa mão pesada da censura, não me culpem a mim, culpem esses autores que são considerados “grandes” da nossa literatura: Dostoiévski, Gorki, Kafka Tolstoi. Ok? …«Muito bem pá»

 

Andavas na sombra. Dormias e comias no teu covil escuro. Vivias imaginando o mundo fora do teu mundo. Um dia quiseste ver a outra face das sombras, saíste! Ganhaste coragem para pavonear-te.

Agora que deambulas cá fora assumiste a forma humana. Pões roupas no teu corpo outrora nu, sujo, viscoso e pensas que já és mais um. Pensas que te confundes nesta multidão amorfa mas eu conheço-te. Eu sei que nessa tua fantasia continuas o mesmo bicho, imundo, que vivia no buraco.

Eu sinto o teu cheiro. Vejo o teu rosto disforme e sinto nojo ao olhar para ti. Quando te fito com os meus olhos percorre-me uma força visceral por todo o corpo, fico a ranger os dentes como um cão enraivecido. Admirado?! Ora, tu sabes que assim é…

Sabes porque nunca te desmascarei? Porque sei que não me cabe a mim fazê-lo. Eu sou apenas mais um que sabe da tua existência. Depois fico doente por não ter tido a coragem de arrancar esses farrapos que ousas trajar.

Mas não serei eu quem irá denunciar-te, tu mesmo irás fazê-lo. Aliás, tudo o que fazes denuncia a tua verdadeira natureza. Com o tempo todos irão perceber que não prestas, que és débil e doente.

Julgas perceber o mundo mas não vês mais que as sombras do teu mundo. Tudo o que fazes, tudo o que dizes, denuncia-te. Também por isto acredito que mais cedo ou mais tarde (ou talvez nunca!) outros irão arreganhar os dentes para ti, pequeno tirano.

Debaixo da terra eras rei e senhor. Rei de ti, de nada, do vazio. Agora que estás à luz assumes que as pessoas são precisamente as sombras em quem mandavas durante a escuridão. Tenho pena de ti, pequeno tirano, não vês que tudo é diferente?! não passas de um ingénuo.

(…) Às vezes fazes-me rir. Divirto-me quando te observo de longe e te vejo a cometer erros. Tomaste a forma de Homem mas só isso não te faz um deles. Cedo perceberás que não te resta nada mais que não seja voltar para o teu mundo.

E nesse dia, pequeno tirano, eu estarei aqui para descrever a tua humilhação. Não empunharei o gládio libertador mas vou participar na cerimónia do teu fracasso. Porque, pequeno tirano, tu não és nada e nunca serás mais que um simples nada. Voltarás para o buraco e, um dia, aqueles que ousaste dominar vão pisar-te com as suas botas pesadas até seres irremediavelmente esquecido…



publicado por CadernoDaNoite às 22:40 | link do post | comentar

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